Antes de iniciar este post, peço licença para deixar uma introdução pouco ortodoxa, mas talvez fundamental para o seu entendimento do que pretendo passar a frente. São duas informações:

Um picolé de uva tem 68 calorias, são cerca de 50 calorias a menos que um picolé de chocolate.

Aos 11 anos de idade, um garotinho norte americano brincava na varanda de sua casa enquanto tomava um refresco de fruta feito por sua mãe. Desatento como era, acabou esquecendo seu copo de suco do lado de fora quando foi chamado para entrar. Era inverno e o frio estava castigando naquela noite.

Na manhã seguinte, o garotinho descobriu que o seu suco havia congelado preso à colher que antes foi usada para mechê-lo. Com a opção de ficar frustrado com o fato ou provar o novo experimento, resolveu optar pela segunda opção e descobriu no gelo com gosto de fruta um sabor único. Após 18 anos da sua descoberta, o garotinho finalmente teve a brilhante ideia de comercializá-la, e assim nasceu o picolé!

Dito isso vamos ao que nos interessa: O que diz a ciência?

Não é de hoje que a neurociência mapeia áreas do nosso cérebro e as corresponde com determinada função. Por exemplo: existe uma área em nosso cérebro responsável por nossas percepções de cheiro, outra área para funções motoras, olfato, tato e por aí vai.

Algumas destas regiões são reconhecidas como as áreas correspondentes à linguagem e estão associadas a como o nosso cérebro interpreta as palavras escritas. E o que os cientistas tem comprovado atualmente ao estudar esta região pode te surpreender.

Um teste feito para uma pesquisa publicada em 2006 no Journal Neurolmage, na Espanha, pediu aos participantes que lessem palavras com forte associação à odores, enquanto seus cérebros eram escaneados a fim de identificar as regiões que seriam estimuladas por tais palavras. O resultado do teste acusou que quando palavras com associação à odores eram lidas, como “perfume” ou “café”, a região do córtex relacionada à odor era estimulada, enquanto palavras sem esta conotação como “cadeira” ou “chave”, a região permanecia inativa.

Já em 2012, pesquisadores da universidade de Emory, nos EUA, fizeram um teste parecido, porém com o objetivo de escanear reações enquanto os participantes liam frases que fizessem associação à sensibilidade ao toque ou textura. Os resultados foram bem parecidos também. Enquanto frases como “A cantora tem voz de veludo” ou “ele tem mãos de lixa” estimularam a região do córtex associada à texturas, frases como “A cantora tem uma voz agradável” ou “Ele tem mãos firmes”, não acusaram reações na mesma região.

Estimulo jogar bolaIndo mais a fundo, pesquisas revelam que o mesmo ocorre com áreas relacionadas à funções motoras. Em um estudo publicado na França, enquanto o cérebro dos participantes era escaneado, os mesmos foram orientados a ler frases com associações motoras. Fazem ideia do resultado? Sim! Frases como “Pablo chutou a bola” estimularam esta determinada região do cérebro e mais do que isso, estimularam a região que condiz especificamente ao movimento das pernas, enquanto frases como “João agarrou o objeto” estimulava a região referente à função motora dos braços.

E existem diversos outros exemplo, mas acredito que com estes já tenha ficado bem claro o que quero ressaltar neste contexto. O  que todos este estudos indicam, é que para o nosso cérebro não existe distinção entre ler e vivenciar determinado estímulo, em ambos os casos, lendo um texto sobre chutar uma bola ou chutando uma bola, a mesma região do cérebro é estimulada.

O poder que o sentido tem para memorização

Mudando um pouco de contexto, em uma palestra no Ted Talks, o escritor científico Joshua Foer, descreve uma técnica chamada  “Palácio da Memória” para explicar como as pessoas podem rapidamente memorizar longas listas de números. Recomendo fortemente que assistam esta apresentação (de verdade, são 20 minutos de puro life changing!) mas caso não tenham tempo no momento, vou resumir sua técnica de memorização datada em mais de 2mil anos A.C:

 

O grande segredo do “Palácio da memória” é imprimir sentido ao objeto que deseja memorizar. Basicamente, para memorizar um texto, número, nome, etc, tudo que precisar fazer é associar seu significado com coisas que fazem sentido para você.

Por exemplo, para me recordar que em uma apresentação eu iria iniciar com um estudo de caso da publicidade das Facas Ginsu 2000, famosa por prometer que corta tudo, e em seguida falaria sobre o Facebook, memorizei a cena clímax da obra prima de Hitchcock, Psicose. Ao abrir a cortina, em vez dos gritos da adorável Janet Leigh, me deparo com um desesperado Mark Zuckerberg nu. Lembrando que o sentido neste caso é pessoal e pode não fazer sentindo para você leitor, mas acredite, desta forma memorizei em segundos a ordem da prometida palestra.

Aproveito a deixa para indicar que façam o teste com algo que faça sentindo para vocês e me contem o resultado.

Traduzindo em Storytelling

Mas o que quero dizer com tudo isso? A função do Marketing em uma empresa é atrair, vender, fidelizar e aumentar o ticket médio de uma marca. Storytelling é apenas uma das inúmeras ferramenta que usamos a favor do marketing. Para quem ainda está se perguntando o que a faz tão especial, segura essa: Storytelling nada mais é que “contar uma história”. E contar uma história nada mais é do que  imprimir sentido a uma marca (vide “O que diz a ciência?”) e quando vemos sentido nas coisas, nos lembramos delas com mais facilidade (vide “O poder que o sentido tem para memorização”). Fazer sua marca ser lembrada é essencial para cumprir todas a funções que o marketing se propõe, e agora sim posso afirmar, isto que a faz tão especial. Storytelling é dar contexto à marcas e dar contexto à marcas é questão de sobrevivência no mercado.

Agora, se você chegou até aqui, e ainda não se convenceu do poder que uma história tem, lembra quantas calorias tem um picolé de chocolate? Agora me conte como foi inventado o picolé 😉